Wagner Portátil
O que dobra e vai a qualquer sala.
- Palhetas
- 1 jogo, dó-dó
- Teclado
- 4/8, transpositor
- Registos
- 1, Forte
- Móvel
- encerado
A Música na Sinfonia da Vida
Construtor de Harmónios e do Bem Social
Construiu harmónios durante mais de sessenta anos e tratou da sua terra com o mesmo cuidado.
1 DE MARÇO DE 1897 — 25 DE FEVEREIRO DE 1988
Há casas onde a madeira guarda o perfume do tempo e a cera conserva a memória das mãos. Em Tentúgal, houve uma casa assim: uma oficina onde a madeira ganhava forma, o ar se fazia música e o silêncio aprendia a cantar.
Chamava-se Horácio Dias de Abreu. Mais de mil e trezentos harmoniuns saíram das suas mãos, levando consigo a alma de quem os construiu e a promessa de dar voz a igrejas, escolas e lares. Em cada fole, em cada palheta, em cada tecla, havia um pouco da sua arte — e muito de uma vida inteira.
Mas a sua obra não se ficou pela música. Das mesmas mãos que moldaram instrumentos nasceram também gestos de generosidade: uma festa, uma fonte, um rancho de crianças, uma casa aberta ao povo. Porque há vidas que não se medem apenas pelo que constroem, mas pelo que deixam a viver nos outros.
Esta é a história de um rapaz que aprendeu a dar ao pedal na igreja, de um homem que fez da sua oficina uma fábrica de sonhos e de um nome que o tempo não conseguiu apagar. É também a história de cartas guardadas numa gaveta, de memórias à espera de serem escutadas e de uma herança que merece voltar a ter voz.
Porque há homens que constroem instrumentos. E há aqueles que, sem saberem, constroem uma parte da alma de uma terra.
Os primeiros anos
Há vidas que começam com o cheiro da madeira acabada de cortar e o som discreto das ferramentas numa oficina. A de Horácio Dias de Abreu começou em Tentúgal, a 1 de março de 1897, ao cair da tarde, quando os relógios marcavam seis horas. Filho de Bento Maria de Abreu, marceneiro, e de Maria Ermelinda Dias de Abreu, cresceu numa casa da Rua das Negratas onde a vida se repartia por onze filhos, entre o trabalho, os afetos e os sonhos possíveis. Dois irmãos partiram para o Brasil, à procura de outros horizontes. Horácio ficou. E foi ficando, também, na memória da terra.
Foi na escola primária que aprendeu as primeiras letras, mas seria noutros lugares que descobriria a linguagem que o acompanharia para sempre. Na Sociedade Instrução, Recreio e Beneficência Tentugalense, fundada em 1896 com a participação do pai, encontrou um mundo onde a cultura e a música abriam janelas para além do quotidiano. O tio, padre Dias, ajudou-o a descobrir o encanto do harmónio — talvez sem imaginar que, naquele jovem, começava já a despertar uma vocação.
Mas antes de dar voz à madeira, Horácio aprendeu a conhecê-la. Seguiu as pisadas do pai e trabalhou como marceneiro, entre tábuas, ferramentas e o saber paciente das mãos. Em 1917, a tropa chamou-o para longe da rotina que conhecia. Levava consigo a juventude, o ofício aprendido em casa e, ainda sem o saber, as sementes de uma obra que haveria de unir para sempre a madeira e a música.
Porque, por vezes, uma grande história começa assim: numa casa modesta, entre as mãos de um pai e a curiosidade de um filho, muito antes de a primeira nota encontrar o seu caminho.
Casou a 14 de fevereiro de 1931 com Carmo Paiva. A 1 de janeiro de 1935 nasceu o filho único, Gilberto, que viria a trabalhar ao lado do pai.
A oficina
Há instrumentos que parecem feitos de madeira, mas que, na verdade, são feitos de ar. Um ar que entra devagar pelos foles, atravessa as palhetas e, quase por milagre, se transforma em música. É nesse instante que a matéria ganha vida e o silêncio encontra uma voz.
O segredo estava nos pormenores, na escolha de cada material, na precisão de cada gesto. Pinho para os foles, mogno encerado para o móvel, pelica, papel de pano, celuloide e pequenos parafusos, cada peça no seu lugar, cada elemento com a sua função. Só as palhetas vinham de longe, da Alemanha. Tudo o resto nascia ali, em Tentúgal.
Numa oficina onde a madeira cheirava a trabalho e a paciência, Horácio Dias de Abreu juntava o saber das mãos à precisão das máquinas. Cortava, ajustava, montava e afinava. Peça a peça, dava forma a um instrumento capaz de levar a música muito para além das paredes onde era construído.
E assim, entre o pó da madeira e o rumor das ferramentas, uma oficina de Tentúgal tornou-se lugar de criação. Porque fazer um harmónio era mais do que juntar materiais: era aprender a dominar o ar, dar-lhe caminho e descobrir a voz escondida em cada pedaço de madeira.
No fim, bastava um sopro. E aquilo que nascera das mãos de um homem começava a viver nas mãos de todos os que o tocavam.
Abre a Fábrica Nacional de Harmoniuns Magnificus. O nome passa a estar em todos os instrumentos.
Leva os harmónios à Exposição Industrial Portuguesa, em Lisboa, e volta com a medalha de ouro.
A oficina e a casa mudam-se para a Rua Conselheiro Ferreira Freire. Ficam ali até ao fim.
A tabela de preços já lista os modelos A, B, C, D e E, e o Portátil.
Frequenta um curso em Tomar, nas Fábricas Mendes Godinho. Nasce o órgão eléctrico Magnus, com um método para aprender a tocar.
A firma passa a chamar-se Fábrica Nacional de Harmoniuns Manuais e Eléctricos Magnificus.
A 7 de fevereiro constrói o seu harmónio n.º 1335, o último registado.
Em novembro, aos 88 anos, pousa as ferramentas.
Os harmónios seguiam para igrejas, escolas e seminários. Era música para mãos de crianças e para vozes de coro.
Em 1961 pediu licença para pôr na fachada uma tabuleta com o nome da casa: Fábrica Nacional de Harmoniuns.
«Qualquer criança ou pessoa adulta pode aprender a tocar órgão sem saber uma nota de música…»Horácio Dias de Abreu
Era essa a ideia. Instrumentos mais acessíveis, e manuais para quem queria aprender sozinho. O órgão Magnus saía com o seu método impresso, com as mãos desenhadas sobre os botões e as teclas.
O catálogo
Cada modelo tinha nome e voz. Wagner, Mozart e Bach chamam a música. Catedral, Silberman e o Modelo 600 prometem sala grande e órgão a sério. A ficha de cada um diz quantos jogos de palhetas tem, em que tom se afina, de que é feito o móvel e que vozes se podem chamar.
Essas vozes são os registos: a flauta, o clarinete, o trémolo, o voix-céleste. Aqui aparecem desenhados como os puxadores que se mexem com a mão.
O que dobra e vai a qualquer sala.
O de casa: uma só voz, bem encerada.
Dez registos e duas joelheiras para encher uma nave.
O mais rico: três jogos de palhetas e doze registos.
Liga-se à corrente, a 220 volts, e vem forrado a plástico.
Três jogos de palhetas e um contrabaixo de som profundo.
Entre 1950 e 1981 ficaram registados 242 harmónios. O que mais saiu da oficina foi o portátil.
Os harmónios saíram de Tentúgal para muitos sítios. Há pontos neste mapa de Portugal, do continente às ilhas. E também houve instrumentos vendidos ou reparados em França, em Angola e em Moçambique.
Quem o conheceu
«Foi o tio padre que o encaminhou para a construção de harmónios… levou-lhe um e ele desmanchou-o e a partir desse fez e inventou os seus… Engenho humano e inteligência.»José Craveiro
«Naquele tempo era muito importante para o filho de uma pessoa ter uma arte, especializar-se num ofício.»José Craveiro
«Era normal vê-lo partir para assistir a peças de teatro…»José Craveiro
Não precisava de monumentos. Bastava-lhe que a terra tivesse água, festa e música.
Papéis de família
Cadernetas, programas, cartas e diplomas. São papéis pequenos, de letra miúda, e foram eles que guardaram o que a memória deixa fugir.
2001 · Missa Magnificus
Vinte anos depois do último harmónio, o neto Pedro Janela pegou no som destes instrumentos, transformou-o electronicamente e escreveu uma missa para ele: a Missa Magnificus, para electroacústica e coro de vozes iguais ou mistas. O nome é o da fábrica do avô.
Teve o apoio do Ministério da Cultura e do IPAI. Estreou em Montemor-o-Velho, com o Coro Ad Libitum, dirigido pela maestrina Isilda do Amaral Margarida, e seguiu depois para outras salas.
Depois de 1988
Há oficinas que o tempo encerra e há outras que continuam a trabalhar, mesmo depois de as mãos que lhes deram vida terem descansado. A de Horácio Dias de Abreu é uma dessas. Quando morreu, a 25 de fevereiro de 1988, deixou mais do que uma oficina e um nome: deixou um saber, uma paixão e uma história que a família soube manter viva.
O trabalho não parou. Primeiro, foi o filho, Gilberto, quem deu continuidade ao caminho traçado pelo pai. Depois, os netos, Nuno e Paulo Abreu, levaram esse legado mais longe, fazendo da Casa Abreu, em Tentúgal, uma referência nacional no comércio de instrumentos musicais. Mudaram os tempos, alargaram-se os horizontes, mas permaneceu a ligação à música — essa herança que atravessou gerações sem perder a sua essência.
Na antiga oficina, porém, o passado continua à espera de quem o queira escutar. Entre as paredes que conheceram o som das ferramentas e o movimento paciente das mãos, sobrevivem máquinas, moldes e memórias. Ali estão o primeiro harmónio construído por Horácio e um modelo portátil elétrico, testemunhos de uma inteligência prática que soube transformar a madeira, o ar e a engenhosidade em instrumentos capazes de dar voz ao mundo.
E a história não termina aí. Pedro Janela, filho mais velho de Gilberto e neto de Horácio, herdeiro artístico dessa mesma tradição, encontrou na música o seu próprio caminho. Pianista e compositor, criou bandas sonoras para cinema e televisão e levou a sua música a palcos em Portugal e no estrangeiro. Nos concertos ao vivo, faz-se acompanhar por um harmónio Wagner fabricado pelo avô. Um instrumento antigo que continua a respirar nas mãos de um músico do presente, unindo num mesmo som o gesto de quem o construiu e a sensibilidade de quem o toca.
É talvez nessa imagem que melhor se compreende a herança de Horácio: um instrumento feito há décadas, atravessando o tempo para voltar a soar. A madeira envelheceu, as máquinas silenciaram-se e muitas das vozes que conheceram a oficina já se calaram. Mas alguma coisa permanece, intacta, sempre que o fole se abre e o ar atravessa as palhetas.
Porque o verdadeiro legado não é aquilo que fica parado no tempo. É aquilo que continua a viver, a transformar-se e a encontrar novas mãos para lhe dar voz.
Joana Neto, A Música na Sinfonia da Vida. Horácio Dias de Abreu: Construtor de Harmónios e do Bem Social. Dissertação de Mestrado, Universidade do Porto, 2005.
Não lhe ergueram monumentos, mas ficou na memória de todos.